"Aí esse Pregador aparece na minha porta, olhos vidrados e órgãos reprodutores limpinhos, me perguntando se penso em Deus. Digo a ele que matei Deus, cacei Deus com um cão raivoso, arranquei as pernas Dele com um aparador de grama, o estuprei com um sabugo de milho e joguei a carcaça num banho de ácido. Aí ele saca uma máquina de choque portátil e me diz que somente a Igreja Sérvia Oficial de Tesla pode salvar meu Campo Elétrico Polifásico Intrísseco, conhecido pelos não-engenheiros como "alma".
- Então eu bati nele. O que você teria feito?” - (Warren Ellis - Transmetropolitan) - [John Coltrane - Blue Train]
Entre a cafeína e os discos de jazz, os velhos e os novos vícios. Algumas vidas repetindo as mesmas notas batidas e tentando me manter vivo. O velho sentimento sádico de quem mantem-se um curioso irremediável que sente a mórbida necessidade de assistir a própria amputação à serra elétrica. - Ah, eu odeio todos vocês. - Eu já bebi café demais nessa vida pra aguentar o tédio crônico que as suas picaretagens travestidas de palavras de ordem supostamente radicais que insistem em repetir os mesmos vícios da reação me causam. Eu ojerizo esta eterna alegria do coração da juventude. A criança interior foi sufocada a muito tempo pelo centro de correção para jovens infratores no qual eu me convertido. Eu sou a negação. - Eu sou a respota dialética e diametralmente oposta ao que você chamam de amanhã. Eu sou o outro lado do que você chamam de alegria. Eu sou a monotonia que responde ao seu patético maracatu e cirandas e todo resto. Eu sou a cafeína e os discos de jazz. Os mesmos e únicos discos de jazz. Eu sou a repetição. Eu sou a História que se repete dia após dia. O eterno dejá vu. As notas se repetem e só percebe que ficou acordado tempo demais, como eu. Eu sou o tédio. Eu sou o tédio. O jazz não tem mais graça quando você olha pelo mesmo lado que eu. - Repetição. Tédio. Repetição. Tédio.
Pode-se imaginar que todo este debate remuse-se a queimar viva a consciência de classe médio-cristã em benefício do barulho e da carnificina promovidos pelas canibais sem dentes que somos eu e meus quatro ou cinco amigos, todos viciados em café e sem o menor senso de humor.
- Bem, é isso aí! - Tudo se resume a um péssimo humor, fruto de uma surra muito bem dada pela luta de classes, além, é claro, da nossa total ausência de estética e noção de arte ou moda. - Pode-se chamar de vingança ou gente sem espírito esportivo. Tudo vai depender do lado do tabuleiro do qual você joga. Não é o seu time que está perdendo, seu imbecil! - Só tem um jeito deste joguinho acabar, e como sempre, isto envolve quatro buracos na cabeça de alguém! O velho estilo da Marinha. Somos só eu e você no velho manequeísmo das arrenas romanas, transmitindo para 150 países através do pay-per-view. - Morrer com mais de dez milhões de pessoas assistindo. Agora eu sei como o John Kennedy se sente!
Esqueçam tudo o que eu escrevi até hoje. Tudo aquilo me envergonha pelo simples fato de ser meu. Vejam as minhas entranhas apodrecerem nas palavras que eu deixei cicatrizar. Feridas minhas dever infeccionar, necrosar e apodrecer por todo o sempre. Nojento, eu sei. Esqueçam tudo! É tudo infantilidade! Nada compara-se as palavras de hoje. Não há nada mais belo do que o sangue fresco que eu deixo impregnado neste papel. Nada é mais belo que meu vício. Seja em café ou qualquer outra coisa. Imagino um taco de beisebol. Depois me imagino espancando um sem-número de imbecis. Posso ouvir seus ossos quebrando em um outro sem-número de minúsculos pedacinhos. Vejo as fraturas expostas. Imagino-me partindo-os. Fresco. Agora, imagino bailarinas canibais. Sim, minha obra-prima em vermelho. Vejo as bailarinas devorarem o esnobe público trajados de Armani e planos de saúde. Imagino aquelas tripas bem alimentadas alimentando-as. Talvez sejam minhas próprias tripas. Tantas vezes já me percebi morrendo, um nova vez não seria surpresa. Vejo napalm entre meus dentes, queimando o vilarejo de heresia que é a minha boca. Me vejo parte do meu canto dos cisne, condenando-me a morrer em minha obra. Nenhuma novidade. Acaba o disco, as canções antes violentas tornam-se dançantes. Eu odeio dançar! Sigo violento. Sinto toda a cafeína do Universo correr em minhas veias num ritmo frenético. Meu sistema circulatório é rasgado como carne em navalha, jogando rios de adrenalina e doença e vícios nos meus músculos. Eu sou a vítima da minha própria maldição. O cordeiro a ser sacrificado em nome de um deus claramente carnívoro. É uma questão de sobrevivência, um dos dois tem que morrer e esse universo não cabe os dois. Imagino universitários de centro-esquerda sendo dilacerados em meio a uma chuva de cutelos que ira limpar a minha vista desta praga semi-beatnik. Eles são gordos, saudáveis e de classe média; merecem sua sentença. Imagino-os sendo fatiados ao meio igual a presunto. Vejo os lados simétricos daqueles ex-futuros colunistas da Carta Capital esaziarem-se de sangue, órgãos e amanhãs. O mundo é pequeno demais para todos nós, até mesmo pra mim quem sabe. Pego-me sonolento, dolorido e suando, como se tenta-se dormir no meio de uma sessão de tortura. Vejo-me o velho sádico de sempre, pagando caro pelas suas perversões, alimentando e afagando a lâmina sobre o meu pescoço. Essa é minha obra-prima: a que não vale um tostão! A única que se faz vida! A minha obra-prima! Minha!
Nick Cave & The Bad Seeds (feat. PJ Harvey) - Henry Lee
Get down, get down, little Henry Lee And stay all night with me You won't find a girl in this damn world That will compare with me And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la La la la la lee A little bird lit down on Henry Lee
I can't get down and I won't get down And stay all night with thee For the girl I have in that merry green land I love far better than thee And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la La la la la lee A little bird lit down on Henry Lee
She leaned herself against a fence Just for a kiss or two And with a little pen-knife held in her hand She plugged him through and through And the wind did roar and the wind did moan
La la la la la La la la la lee A little bird lit down on Henry Lee
Come take him by his lilly-white hands Come take him by his feet And throw him in the deep deep well Which is more than one hundred feet And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la La la la la lee A little bird lit down on Henry Lee
Lie there, lie there, little Henry Lee Till the flesh drops from your bones For the girl you have in that merry green land Can wait forever for you to come home And the wind did howl and the wind did moan
La la la la la La la la la lee A little bird lit down on Henry Lee
'Murder Ballads' foi um dos discos mais importantes da minha adolescência.
Eu odeio a beleza! Fato! Eu odeio tudo aquilo que representa a beleza podre e burguesa! Eu odeio a beleza branca, a beleza rica, a beleza de dentes brancos e completos em bocas sorridentes e bem alimentadas. Comerciais de pasta de dente me enojam, todos eles. - Eu sinto falta dos dez mil anos nos quais eu não existi. Dos anos em que o povo tomava os belos teatros burgueses com bombas, espadas e toda a violência que encharca os seus sonhos. Eu sinto falta dos presidentes mortos nos teatros, dos terroristas ingleses que plantam toneladas de explosivos embaixo do Parlamento. Ah, que saudade dos tempos em que éramos perigosos! - Nós éramos jovens e tão violentos! Hoje, somos tão social-democratas! - Eu queria ter um isqueiro e dois mil litros de napalm para queimar tudo o que é belo no mundo. Eu queria mísseis nucleares apontados para cada teatro, cinema e poeta no mundo. Que todos renasçam com a pele cinza e purefata, comidos por corvos e insetos. Eu quero cada dente apodrecido e quebrado, que nenhum sorriso brilhe e que cada criança gorda, branca e cristã seja devorada pelos exércitos de zumbis que governarão o mundo. - O meu mundo é fruto da catástrofe. Patético, eu sei. - Não há perdão! Não há perdão! Não há perdão para um mundo que vive sem paixão Não perdão para um mundo que se deixa ficar bêbado pela luz branca da beleza burguesa. Não há perdão para quem molha nossa pólvora e nos faz viver sem fogo Não só para nossos cigarros, mas para nossos vulcões! Não só para nossos teatros, mas para nossos mundos! - Prometeu está morto, mas o fogo deve ser nosso de novo. A beleza do Olimpo vai arder em chamas! Deuses, temam um povo sem dentes. O fogo é nosso e seus cadáveres também. Carne sagrada para um povo profano, para o povo faminto, para a nação sem beleza, o exércitos dos zumbis! - [Sahara Hotnights - Teenage Kicks (Undertones Cover)]
"Ao futuro ou ao passado, a uma época em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e que não vivam sós - a uma época em que a verdade existir e o que foi feito não puder ser desfeito. Cumprimento da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão (...)
ABAIXO O GRANDE IRMÃO ABAIXO O GRANDE IRMÃO ABAIXO O GRANDE IRMÃO ABAIXO O GRANDE IRMÃO ABAIXO O GRANDE IRMÃO"