Esqueçam tudo o que eu escrevi até hoje. Tudo aquilo me envergonha pelo simples fato de ser meu. Vejam as minhas entranhas apodrecerem nas palavras que eu deixei cicatrizar. Feridas minhas dever infeccionar, necrosar e apodrecer por todo o sempre. Nojento, eu sei. Esqueçam tudo! É tudo infantilidade! Nada compara-se as palavras de hoje. Não há nada mais belo do que o sangue fresco que eu deixo impregnado neste papel. Nada é mais belo que meu vício. Seja em café ou qualquer outra coisa. Imagino um taco de beisebol. Depois me imagino espancando um sem-número de imbecis. Posso ouvir seus ossos quebrando em um outro sem-número de minúsculos pedacinhos. Vejo as fraturas expostas. Imagino-me partindo-os. Fresco. Agora, imagino bailarinas canibais. Sim, minha obra-prima em vermelho. Vejo as bailarinas devorarem o esnobe público trajados de Armani e planos de saúde. Imagino aquelas tripas bem alimentadas alimentando-as. Talvez sejam minhas próprias tripas. Tantas vezes já me percebi morrendo, um nova vez não seria surpresa. Vejo napalm entre meus dentes, queimando o vilarejo de heresia que é a minha boca. Me vejo parte do meu canto dos cisne, condenando-me a morrer em minha obra. Nenhuma novidade. Acaba o disco, as canções antes violentas tornam-se dançantes. Eu odeio dançar! Sigo violento. Sinto toda a cafeína do Universo correr em minhas veias num ritmo frenético. Meu sistema circulatório é rasgado como carne em navalha, jogando rios de adrenalina e doença e vícios nos meus músculos. Eu sou a vítima da minha própria maldição. O cordeiro a ser sacrificado em nome de um deus claramente carnívoro. É uma questão de sobrevivência, um dos dois tem que morrer e esse universo não cabe os dois. Imagino universitários de centro-esquerda sendo dilacerados em meio a uma chuva de cutelos que ira limpar a minha vista desta praga semi-beatnik. Eles são gordos, saudáveis e de classe média; merecem sua sentença. Imagino-os sendo fatiados ao meio igual a presunto. Vejo os lados simétricos daqueles ex-futuros colunistas da Carta Capital esaziarem-se de sangue, órgãos e amanhãs. O mundo é pequeno demais para todos nós, até mesmo pra mim quem sabe. Pego-me sonolento, dolorido e suando, como se tenta-se dormir no meio de uma sessão de tortura. Vejo-me o velho sádico de sempre, pagando caro pelas suas perversões, alimentando e afagando a lâmina sobre o meu pescoço. Essa é minha obra-prima: a que não vale um tostão! A única que se faz vida! A minha obra-prima! Minha!
[Crime - Rockabilly Drugstore]
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