quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Cachorros Mortos na Estrada

"Agora você vai morrer com esse chapéu idiota.
Qual é a sensação?"
(Um Dia de Fúria - Joel Schumacher)
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Dois canos gelados entre meus olhos, foi isso o que me acordou. Por dois segundos eu não quis abrir os olhos, por ter certeza daqueles dois canos que me observavam famintos, querendo cuspir em mim todo aquela pólvora e chumbo para as quais foram criada para disparar.
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Eu abri os olhos, como é triste estar certo, dois canos de uma mesma arma me observavam de perto. Eu, pateticamente enrolado no lençol, lanço um olhar contra meu executor.
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- Quem é você?
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Que pergunta patética! Eu sei, exatamente, quem é ele. É claro que eu sei, eu que o criei. Criei ele, a arma, o lençol e todo o mundo que existe além das chuvas torrenciais que caem nesta época do ano. Tudo. Tudinho. Desde As Sete Patéticas Maravilhas do Mundo Moderno até todos os milhares de cachorros mortos na estrada. Tudo minha criação. Eu sou o maldito autor. Eu sou o maldito criador. E, neste exato momento, estou aqui, orquestrando a minha própria morte.
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Ele não me responde. Eu o fiz assim. Eu o fiz com cabelos negros, olhos negros e uma arma. Eu o vesti na camisa negra do Justiceiro e na calça jeans. Eu lhe dei roupas. Eu lhe dei armas. Eu lhe dei uma vítima. Mas me recusei a dar-lhe voz. Está é a minha morte! Este é o gran finale da minha peça, e a cortina desce após o último ato, o meu monólogo.
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O rosto dele sua, a arma está engatilhada e eu estou jurado para morrer. O metal inicia um lento processo de oxidação em contato com o suor da mão dele. A qualquer momento... Em breve, eu sei apenas outro cachorro morto na estrada que ninguém se dá ao trabalho de retirar. Eu acordei esta manhã com dois canos de arma de fogo entre meus olhos. Eu os coloquei lá. Eu podia morrer dormindo, sem monólogo, mas minha peça ficaria sem final, sem continuação, sem nada! Eu precisava morrer assim! Bum, uma explosão e pronto, meu cérebro espalha-se por toda a parede, pintando-a de vermelho e cinza. Meu corpo cai e tudo acaba. A cortina desce e fim. É bom jeito pra morrer.
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Ele engole a saliva, eu observo seu pomo-de-Adão subir e descer. Então isso é morrer... este é o mais antigo ritual da vida! Eu estou aqui, terminando o ciclo que todos acabam um dia. A arma me olha, eu sinto que vou morrer em segundos, ele vai atirar, ele tem que atirar, eu o criei, é o meu poder, eu sou o autor, eu sou Deus! Deus deve morrer! Eu devo morrer e os cães de estrada devem ressuscitar para tomar o mun...
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Acabou, ele atirou, atirou e ficou sem história para protagonizar. Ele tira meu corpo da cama, deita e dorme pra sempre, com todo o silêncio e a paz a qual eu me recusei. Ele deita e dorme pois sabe que agora eu estou morto e todas as histórias que eu tinha sobre ele estão pintadas na parede. Cães mortos não escrevem histórias.
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[Damon Alexander and the Ten Cents Rentals - Ninja Scroll]

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