terça-feira, 4 de novembro de 2008

Porcelana de Família

Sim, um monstro, é isso que sou
quando a febre faz a fera adormecida
saltar do seu canto e, rangendo os dentes,
debater-se no frenesi da epilepsia.
(Life is a Lie - Gardenal 200mg)
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Eu não costumava ser assim
Eu nem sei como cheguei a esse ponto
Eu não queria que acabasse assim
Eu juro
(...)
Mentira
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O sangue dele respingava no meu rosto, entupido de endofinas, adrenalina e medo, como se o cérebro dele tentasse, inultilmente, drogá-lo e dizer "isso vai passar". Cada gota de sangue misturáva-se ao suor do meu rosto e escorria até a minha boca, onde não era nem doce e nem salgado, mas era bom.
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Os olhos dele ainda estavam abertos, ele realmente é durão, toda essa surra, e ele ainda consegue me olhar com aquele olhar de desespero. Não me olhe com essa cara, isso realmente não me comove, na verdade, isso me diverte.
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Seus cabelos castanhos muito curto, aos poucos, ganham o mesmo tom viscoso do sangue que escapa por todos os orifícios de sua cara. Dá pra sentir os dentes dele se quebrando contra meus punhos, na verdade, eu já me cortei umas duas ou três vezes naqueles pedaços de porcelana porcamente presos a sua gengiva e um dia foram uma bela arcada dentária. Ele todo é uma massa desforme de sangue, carne e sangue.
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Ele continua me olhando
Eu continuo batendo
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Eu vejo os olhos dele, são os olhos mais verdes que já vi, todo o sangue de todas as guerras já travadas estão derramados sobre aqueles olhos, eu abri todas as chagas de todos os corações partidos, o sangue do Messias escorria aos pés da cruz e banhava não mais o chão de Judá, mas sim os meus punhos possuídos pela vingança, mas os olhos dele ainda são verdes, como são verdes. Nem mesmo todo o napalm da terra poderia tirar o verde das florestas tropicais. Os cadáveres pútridos e sem vida cobririam cada palmo de terra do Vietnã, mas as florestas ainda seriam verdes, e meus punhos poderiam ser os punhos de Hércules, mas aqueles olhos ainda seriam verdes, e aqueles olhos verdes fediam a dúvida... a dúvida do "Por que? O que eu te fiz? Eu nem sequer te conheço!" POR QUE?! POR QUE, SEU PORCO!? PORQUE EU TE ODEIO! Eu nem ao menos te conheço, mas te odeio, odeio seus dentes perfeitos, sua pele bem cuidada, suas unhas bem-aparadas, seu colesterol baixo, seu plano de saúde com cobertura total, seus filhos perfeitos que só tiram nota máxima e que, dentro de pouco tempo, tornaram-se uma reprodução impecável daquilo que hoje é você. Por todo o seu complexo de "família dó-ré-mi", eu te odeio. Porco!
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Dá pra sentir ele tentando respirar entre um soco e outro, tentando, inutilmente, cuspir todo o sangue que escorre pra dentro da garganta e o sufoca, como um hebreu enganado por seu deus e se afoga nas águas do Mar Vermelho que ficam mais vermelhas de sangue e mais salgadas de lágrimas. É inútil, nem mesmo uma plataforma de petróleo poderia tirar todo o sangue da garganta dele, pois não é só o sangue teu que engole, é o sangue de toda uma vida, a minha vida.
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Você? Você é o mundo que eu devo destruir.
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O cérebro dele, que, a poucas horas atrás, tentava descobrir como chegar aos 65 com saúde e uma bela aposentadoria, agora tenta, desesperadamente, lembrar-se quais fonemas compõe a palvra "socorro", mas é inútil, ele pode lembrar quais são os fonemas que compõe "pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico" que de nada adiantaria, ele pode começar a discorrer sobre Schopenhouer perante meus olhos que eu juro que não fará a diferença. Eu não falo o seu idioma, eu não falo idioma algum, a minha língua é composta de gruinhidos e urros de dor, a língua das bestas, que imploram por perdão por serem o que são, é por vingança, por vocês serem o que são, e nenhuma língua, seja ela neo-latina, saxã, egípcia ou a língua do pê será capaz de te salvar. Eu sou besta. sou monstro, demônio, sou cão. Desista, eu não estou disposto a fazer concessões, apenas aceite o inevitável e tente não me fazer bocejar.
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Porco!
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Meu punho começa a ser encravado por pedaços pequenos de porcela que um dia foram aqueles dentes perfeitos, mas que também poderiam ser os sonhos dele se partindo contra o meu punho, toda a esperança no amanhã morrendo contra os nós dos meus dedos. Não, acho que era apenas aqueles pratos de porcelana, presente de casamento, herança de família, esmigalhando-se contra meus braços latejantes, como enfeites de vidro que são belos quando inteiros, mas cortantes e mortais quando despedaçados. Eram sonhos e eram dentes, da mesma forma que eu era algoz e vítima e ele também.
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Meu cérebro fazia questão de esquecer qualquer lembrança da minha vida anterior, eu não sei meu nome, não sei onde moro, não sei onde trabalho, não sei quem amo, tudo isso numa tentativa desesperada de tentar esvaziar-me de qualquer culpa do meu crime de destruir universos particulares com os punhos, da maneira que apenas um deus poderia fazer, sim, é isso que sou agora, um deus, eu tenho o poder sobre a vida e a morte, da minha carne faz-se a terra, do meu sangue fazem-se os mares e do meu sêmen nasce a vida. E da mesma forma que eu dou a vida, eu tiro. A sua vida é minha, eu sou o teu dono, eu sou o teu Deus, pois isso é um deus: alguém que mantêm a arma constantemente apontada contra a sua cabeça. E do deus criador e benevolente eu me deixo ser possuído pelo deus déspota e vingativo, sem nenhur pudor. Eu sou como o Galactus que se alimenta de mundo e nenhum herói poderá me deter. Eu sou um Dr. Jekyll depravado que se diverte ao assistir Hyde dançar pelas ruas de Londres.
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Londres é o mundo, e o mundo é meu.
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Ele pará de se debater, sua boca para de cuspir na minha cara. Ele é durão, eu tenho que admitir. Seus olhos verdes escurecem, a floresta tropical não mais ousa ser verde diante do meu Apocalipse. Eu solto o colarinho dele, e nele fica impresso o desenho perfeito dos meus dedos, que nem naquelas pinturas à dedo que a gente fazia na pré-escola e no tempo em que não sonhávamos nos tornármos assassinos, prostitutas, viciados, enfim, exatamente aquilo no que nos transformamos. Eu saio de cima dele, e pela começo a me lembrar como é ser um homem branco, cristão, hétero, ocidental e sem graça. Eu vejo Hyde fugindo pelas ruas úmidas da última chuva de Londres, eu vejo Hyde correr, vitorioso, invencível, fazendo piada da Scotaland Yard. "EU SOU O REI DO TÂMISA!". Hyde é um monstro, um selvagem que se declara rei da floresta de pedra, Londres é o mundo, Hyde é o filho bastardo do darwinismo social, o aborto clandestino do American Way of Life. Hyde é um animal fugido do circo, um lobo, Hyde é um homem, o lobo do homem.
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[The Other - Ode to Darkness]

1 comentários:

Gabriela Galvão disse...

AHAHAH! Como em poucos dias, estou bem raivosa hj e isso soou bem aos meus ouvidos.

Tipo Hannibal Lecter se ensaboando e rindo e cantarolando no banho ao som de Bach, qq coisa por ai.


Alegremente raivosa, eh assim q estou.