quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Deserto da Judéia

"(...) mas é o espírito do anticristo,
a respeito do qual tendes ouvido
que havia de vir; e agora
já está no mundo.”
(I João 4:3)
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Relógios mentem
Definitivamente, relógios mentem.
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Deitei aqui perto do fim da mais bucólica das tardes, deitei, eu e meus demônios, todos eles, todos os demônios que eu criei, que eu roubei, que me invadiram e até mesmo aqueles que, simplesmente, apareceram aqui.
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Eu permaneci aqui, deitado, por dois mil anos, digam o que quiseram, dois mil anos, não importa o que digam.
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Relógios mentem.
Três minutos.
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Dois mil anos, todos eles de silêncio, nem chuva, nem explosivos, nem tango, ficar aqui deitado, morrendo, tentando morrer ou simplesmente imaginando como é morrer, foi algo extremamente silencioso.
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Eles me vigiavam, meus demônios, desque aqueles demônios de meninos que não me deixavam dormir até aqueles de hoje que não me deixavam viver. Uns de rostos, pés, peito, nariz bem definíveis e descritíveis, outros apenas massa escura e disforme de metafísica grudada na parede, me olhando, todos, todos eles me olhando, esperando apenas duas palavras quaisquer para me devorar.
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Sete minutos
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Dois mil anos, tanto tempo, tempo demais, mas o sol não se punha. Durante dois mil anos foi 17:07, dois minutos a mais, dois minutos a menos, 17:05, 17:09, tanto faz.
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O sol agonizante orquestrava a aquarela de vermelho que era o céu o céu, como se o dia fosse carne viva que sangrava e morria, e o Sol permanecia estático, como faca encravada na carne que ardia. Nas pontas do horizonte, a carne do céu apodrecia e necrosava, ganhando tons enegrecidos de noite.
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O céu está morrendo.
O céu está morrendo.
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Por dois mil anos eu vivi a hora mais triste do dia.
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Eu. Eu e meus demônios. Eu, meus demônios e toda a humanidade. Por dez minutos, sete minutos, dois milênios, desisto de contar.
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Me sento na cama, tudo está congelado, imóvel e inerte, os demônios, o sol, o mundo, tudo. Ao meu lado ele senta também, onze minutos, seus olhos negros, seu rosto belo, sua pele morena e seu terno negro risca de giz com um cravo preso na lapela. Meio Antônio Bandeiras, meio Sonny Corleone. Ele não fala, ele nunca fala, ele age em silêncio. Todo o universo nos olha, eu também não falo, quando eu falo, universos morrem.
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Éramos os dois, eu e o maior criminoso de todas as Eras.
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Ele passa a mão no meu cabelo, eu sinto a minha caspa bater no meu pescoço. Olho nos olhos dele, ele era a criatura mais bela da criação, as lendas éram reais, Deus está morto, Deus nunca existiu, mas ele era a criatura mais bela da maldita Criação. Já eu, tinha um rosto que era reflexo do que havia se tornado a minha alma: "a bosta e o lixo pós-consumo que ninguém se dará ao trabalho de reciclar", "o subproduto do lixo tóxico da criação de Deus", dava para ver isso dentro dos olhos dele, dava pra ver o Universo nos olhos dele. Merda, eu não era nada perto dele.
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Dois mil anos.
Perdi a conta.
Acho que é isso.
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Ele coloca a mão no meu ombro, eu deito a minha cabeça no ombro dele. Eu deixo morrer todos os meus dogmas do "macho-branco-cristão-hétero-ocidental" e assumo a minha natureza de bicho covarde que eu sempre fui. Ele me abraça, como um irmão, como um pai me abraçaria, ele me entende, ele sabia, sabia como era ser rejeitado.
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Eu queria chorar, mas eu não choro, eu finjo ser forte, mas não sou, eu sou fraco, eu também me apaixono, eu também me decepciono, por mais que eu nege.
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Fraco.
Fraco.
Fraco.
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Merda, eu não sou nada perto dele.
Eu não sou nada sem ele.
Eu não sou nada sem nenhum deles.
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Ah, meus demônios, o que seria de mim sem vocês? Ah, meu esqueleto no armário, meu monstro debaixo da cama, meu demônio sobre o colchão. Eu os amo, cada um de vocês, eu sou um fraco por dizer isso, mas eu amo vocês, e por esse dois mil anos em que o sol não se pôs, vocês foram o meu clubinho secreto onde ninguém entra.
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Eu o solto, eu não tinha nada, não era nada, tocar nele doía, ele era tão perfeito. Não disse nada, me levantei e saí, o sol parece que se entediava da minha fraqueza e da fraqueza de todo esse lado do planeta e dirigia-se ao outro lado do mundo para assistir monstros destruírem Tóquio. Eu saí pela porta e eles foram embora, depois de dois mil anos, eles foram embora.
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Eles voltam
Eles sempre voltam
Trinta e dois minutos
Sempre
Eu sei
Dois mil anos
Eu sei.
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[Misfits - Saturday Night]

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