terça-feira, 2 de setembro de 2008

Tiros no Topo do Mundo


"tinha plena consciência do ato que cometia / a maior covardia de que se tem notícia"
-
Eram os dois jovens, e os dois com pouco tempo. Quase nenhum segundo, haveria de ser ali, haveria de ser agora.
-
Era o topo do prédio mais antigo daquela imensa, cinzenta, assassina e sádica metrópole. Aquela metrópole que nos últimos dezenove anos fez questão de provar para os dois que ela era invencível. E que nem eles dois e nem ninguém poderia derrotá-la. Ela permaneciaria ali, indestrutível, até o fim dos tempos.
-
O último andar do prédio havia sido abandonado fazia alguns anos, hoje havia apenas um banheiro e um monte de caixas de papelão vazias que eram os únicos móveis que ocupavam aquele ambiente empoeirado que um dia havia sido belo e nobre, mas era óbvio que aqueles 12 m² eram humanos. E, como humanos, perdiam a beleza, a dignidade e a humanidade com o passar dos anos e das vidas.
-
Era ali, aquele era o local que ambos haviam escolhido para morrer.
-
Chegaram juntos, em silêncio, nenhuma palavra, nenhuma emoção. Ambos sabiam, sem nenhum sentimento, frios como a maçaneta daquele banheiro e a porcelana daquelas privadas que um dia estiveram aquecidos por toda a merda daqueles 14 andares
-
Nenhuma palavra, nenhuma emoção, afinal de contas, morrer era a coisa mais normal do mundo, mas morrer hoje teria um novo contexto, uma nova razão... hoje morrer não era covardia e nem destino... ERA VINGANÇA! Por um segundo, por toda a perfeição de um segundo "um segundo é tudo o que se pode esperar da perfeição". Haveriam de morrer, ser senhores do seu destino, por um segundo, para sempre.
-
Sem uma palavra, sem uma emoção.
-
"Minha vida, finalmente minha!"
-
Entram no banheiro, tiraram os casacos
-
Sentaram-se nas privadas, uma delas fixas, e a outra arrancada, por eles mesmos, colocada na frente da primeira
Um dos rapazes suspira, abre a mochila, puxa duas semi-automáticas, puxa dois deuses, que os tornariam deuses como eles.
-
Entregou uma das semi-automáticas ao seu companheiro, ele a pegou e observou o metal negro como se ele refletisse toda a sua vida e a vida de todo o universos, desde os tempos esquecidos até aqueles que nunca foram vividos.
-
- Então é isso? Aqui é que nós morremos?"
- Sim
- Não há glória nenhuma nisso.
- Não há glória nenhuma em nada! Não há dignidade, não há honra. Tudo o que se pode fazer é sentar e esperar que a sua chance de ser um herói cai no seu colo ou entre no seu rabo.
(Fez uma pequena pausa e olhou pela janela. Dava pra ver o mar, além de todos aqueles edifícios cinzas, dava pra ver o mar)
-
- Eu não tenho mais paciência pra esperar.
-
Ambos ergueram suas armas e apontaram um para o outro, sem emoção, sem sentimento, sem rancor, inalcançáveis e absolutos, seus olhos intocados pela alegria ou pela tristeza, como se nunca tivessem existido
-
- Quantas balas temos?
- Sete.
- Uma não é o bastante?
- Nunca se sabe.
- Certo, no três
- Um
(Nenhuma gota de suor)
- Dois
(Nenhuma palavra de consolo)
- Três
(Mais nada a perder)
-
(...)
-
(...)
-
(...)
-
(Morrer sempre é algo lento, atire na sua cabeça e você sentirá a bala atravessando seu crânio espalhafatosamente antes de jogar seu cérebro pra dentro do seu pavilhão auditivo. Tente se enforcar e você poderá ouvir os ossos do seu pescoço trincarem devagarinho antes de quebrar. "Morrer nem é tão legal assim")
-
(Os segundos que aquela primeira bala levou para atingi-los pareciam horas, eles podiam vê-la se aproximando, como se risse deles, como se zomba-se deles e soubesse que eles imploravam desesperadamente por ela. Aquela bala, naqueles poucos segundos, era a ressureição e a vida, que crer nela, viverá)
-
- Estamos mortos?
- Talvez.
-
(Falavam com dificuldade, podiam sentir o sangue jorrando quente através dos seus ferimentos, mas isso ainda não era o bastante)
-
(...)
-
(...)
-
- Continue atirando!
-
(Os tiros agora não mais faziam cerimônia, vinha rápidos e quentes, como se tivesse pressa, ou talvez quisesse que aquilo fosse rápido, mas não era, aqueles tiros levaram dezenove anos para chegar. Era hora de recuperarem o tempo perdido.)
-
tiro 2
-
tiro 3
-
tiro 4
-
silêncio
-
mortos
-
enfim
-
mortos
-
enfim
-
vingança
-
enfim
-
fim.
-
[Bandanos - Com as Próprias Mãos]








0 comentários: