domingo, 21 de setembro de 2008

Sísifo e a Metralhadora

Tinha 29 anos e uma metralhadora. Passou os últimos doze dias dentro daquele quarto e os últimos 29 anos fugindo, fugindo da morte, da dor, da culpa, e cumprindo a eterna sina humana que é fugir, na esperança vã de no meio da rota de fuga porcamente planejada, que é tão ridícula quando vista de fora e circular quando vista de cima, achemos alguma coisa. Antes tudo isso ele fazia só, fazia só por fugir da solidão, e hoje era apenas ele, ele e a metralhadora, e todo aquele banquete de remédios, injeções e milagres farmacotrópicos e psicoativos, ele e sua metralhadora, atirando em tudo o que se mexia.
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Ele sabia, sempre soube, a desgraçada estava ali, ela sempre esteve, mas nunca esteve tão perto, seu vestido preto nunca foi tão preto e seus dedos curtos e criminosos nunca lhe pareceram tão próximos quanto naqueles doze dias. ela sempre esteve ali e ele era o próximo.
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Mas ele não haveria de se entregar, não havia chegado tão longe pra deixar acabar agora, não haveria de acabar ali, debaixo daquelas paredes brancas, daquele ar impregnado de remédio e diante daquele banquete de pílulas pra dormir. Iria morrer com dignidade, em qualquer lugar, mas não ali, ela não haveria de entrar através daquela porta, através daquelas paredes, derrubaria o céu se fosse preciso, arrancaria cabeças daqui até o inferno, mas não haveria de acabar ali, não acabaria de acabar jamais, era ele, ele e sua metralhadora, contra o inevitável, contra o invencível, e por uma fração de segundo ele alimentou a esperança de ganhar.
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Não lembrava ao certo como acabou ali, ele e a metralhadora, mas lembrava bem da primeira vez que aquela cadela havia chegado até ele.
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Acordou naquele buraco havia doze dias, ele e a metraladora, sentia o peito quente, como se algo queimasse, queimasse e ardesse por todos os seus órgãos, como se um demônio se debatesse e arranhasse dentro do seu corpo, sem lógico pré-definida, como em uma dança sádica que não costumava deixar sobrevivente, algo queria sair dali, abandonar seu corpo como na esperança de encontrar o Criador e descobrir que o Criador se resumia a um punhado de vermes que se alimentava da desgraça humana. Sentia-lhe o sangue escorrer, os médicos tentavam arrancar o câncer que alimentava aquela ferida, o mal que o devora aos poucos, foi a primeira vez que a viu, seus braços finos e brancos, seus olhos fundos, seus cabelos escorridos, seu rosto feio, seu rosto feio e mau... seus dedos curtos cutacavam seu ferimento, ele tentava gritar, tentava exorcizar toda aquela dor e agonia que tomava seu corpo, mas não podia, sua voz não era mais sua, e não podia ouvir mais nada, somente aquela gargalhada sádica daquele demônio de corpo fino e pele alva, nada lhe dava mais prazer do que ver-lhe gritar, vê-lo gemer, vê-lo dançar conforme a sua música, sua música que ela havia composto, nota por nota, sua canção que era mais antiga que todas as sinfonias de todos os músicos, que era perfeita, que era única e, principalmente, que era sua.
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Foi nesse momento que ele a sentiu algo gelar em sua mão, algo negro, morto, profano, herege. Sua única chance contra aquela desgraçada, a última arma no campo de batalha. Nunca havia mexido com uma metraladora, tudo que sabia havia aprendido na tevê, e como pode ser útil o que a gente aprende na tevê, puxou o gatilho com tanta força que não pensou tê-la tanto assim, mirou-lhe a cabeça, ela continuava a rir, ela jamais ia parar de rir, pois sabia que a sua música ia tocar até o fim dos tempos.
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Atirou, pela primeira vez eles eram um, ele e a metralhadora, pela primeira vez ela gritou, seu grito era agudo, então ela corre, corre e grita, e eles ficam ali, ele e a metralhadora, certo de que ela vai voltar, ela sempre volta, ela sempre vence.
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Então ele acordou, ele e a metraladora, ali onde tudo era silêncio, o peito latejava, gelado, como que sem vida, seqüela daqueles dedos dentro de seu peito, mas sabia estar seguro, ele e a metralhadora, por enquanto, nunca pra sempre.
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Anoitecia, ele podia sentir-lhe pelo cheiro de vômito que ecoava por todos os centímetros daquele quarto, ele podia ouvir gritos, ela estava ali, ela se alimentava disso, não haveria ninguém para protegê-lo, nem Deus, nem polícia e nem nada, eram só eles dois, ele e a metralhadora.
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Ela invade o quarto, sem expressão e sem cicatrizes, como se o tiro da noite passada nunca tivesse existido.
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- Quem é você?
- Dentro de alguns instantes isso não fara diferença.
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A voz aguda dela ecoava por aquele quarto sem a menor emoção, como se sua alma fosse intocável e inalcançável tanto pela alegria quanto pela tristeza, tanto pelo amor quanto pelo ódio, tanto por Deus quanto pelo demônio. Nada a comovia, nada a machuraria, nem pecados e nem orações, nem vingança e nem perdão, quanto mais... balas!
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- Sou eu quem tem um arma, entendeu? Dentro de alguns instantes você vai ter outra bala no meio da cara se não responder a minha pergunta.
- Atire, arrebente a minha cabeça por todas as noites, não importa quantas batalhas eu perca, no final todas as guerras serão minhas, desista.
- O que te faz crer que é tão invencível?
- Os fatos. Eu sou o ser mais velho do universo, eu antecedo tudo, eu vi todo o universo nascer e morrer, e, acreite, eu nunca perco.
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(...)
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- Você é a morte?
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(Ela acena positivamente com a cabeça)
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- Então, chegou a minha hora?
- Como vai chegar a hora de todos, talvez até a minha.
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(Ele olha para o curativo em seu peito e o arrancar, oito pontos perto do coração, ele havia de morrer, mas não ali, jamais ali.)
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- Mesmo que todas as guerras te pertencam, essa batalha ainda é minha, eu não hei de morrer aqui.
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(Ela apenas sorri, a assassina particular de Deus apenas sorri. E ela, em sua mente homicida e sádica, em seu coração gelado apenas pensa, a maior genocida da História, que quebra a espinha de pais de família e arranca a alma de crianças famintas apenas pensa: "vai ser divertido")
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[Black Flag - Beat My Head Against the Wall]

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