quinta-feira, 17 de julho de 2008

Aos Bastardos, Mais um Gole (Monólogo Final - O Réu Confesso)

"Como ananás! / Mastiga, perdiz!
Teu dia está prestes, burguês."
(Vladimir Maiakovski)
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Primeiramente, gostaria de me apresentar: prazer, meu nome é irrelevante nesse momento... eu, como todos vocês fizeram questão de falar, sou o burguês! E venho aqui declarar que desde que entrei neste bar fui acusado de todos os crimes já cometidos e e agora eu gostaria de dizer que não vou me defender, pois contra fatos não há argumentos, por isso, vou falar pouco.
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"Como você declara-se em relação as acusações, pequeno burguês?"
"CULPADO!"
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O que eu queria vindo aqui nunca foi o perdão, alguns crimes são hediondos demais para ser perdoados... e eu cometi todos eles! O que eu queria aqui era declarar a minha traição! Eu trai meu povo, eu traí o povo burguês! Eu cuspi no prato que comi, pois haviam manchas de sangue nesse prato, e sangue inocente!
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Entrei nesse bar não com a intenção de beber alguma coisa, contar uma piada e voltar para casa. Não! Não vim aqui continuar com a minha vidinha, eu vim aqui pra morrer! Pois aqui, entre essas paredes cheias de infiltrações, serei executado por meus crimes no decorrer da História, lá fora, pela minha traição! Aqui, pelas minhas vítimas, lá fora, pelos meus irmãos!
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A minha vida inteira eu vivi com sonhos pré-fabricados: carro, uma tevê LCD, um pau grande, um colesterol baixo, uma arcada dentária impecável, tudo o que me deixasse o mais perto possível da perfeição. A minha vida inteira eu fui treinado para ser um Deus, o senhor dos povos sem letras que precisavam de um caminho. Eu tenho 17 anos, e fui ensinado à liderar um povo que eu hoje vejo que nunca precisou de líderes. Hoje, tudo menos aquilo. Não mais! O que eu quero? Ah, o que eu realmente quero...
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Aquilo que realmente eu almejo é o que vocês tem de sobra, aquilo que vive dentro dessas paredes de pedra, dessas vielas cheias de ratos. O que eu quero é o pecado, o erro, o excesso, o imperfeito, as maldições e as revoluções, é as revoluções! Eu quero as revoluções que me queimarão na fogueira, que vão me tirar o poder e a cabeça. As mesmas revoluções que haverão de decaptar a minha cabeça são as que enchem o meu coração.
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Foi por esse motivo que vim ao Parede de Pedra, não queria simplesmente alguém que bebesse comigo... queria alguém que me matasse! Vamos, me arranquem a cabeça, a de todos nós, tomem as ruas, o que é de vocês, os bastardos, vinguem-se!
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Nada mais!
Apenas vingança!
Apenas justiça!
Nada mais!
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Derrubem os templos nos quais eu fui batizados, expropriem as fábricas que meu povo é dono! Destruam o meu mundo! Destrua o meu mundo sem álcool, sem cafeína, com 0% gordura trans, rico em fibras e politicamente correto. O meu mundo, previsível, repetitivo, monótono...
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Matem-nos, não nos deixem viver! Não merecemos isso! Me arraquem a cabeça, para que eu possa renascer um dia. Bastardo! Como vocês, bastardos! Filhos dessas vielas, dessa cerveja quente e desses ratos! Dentro desses banheiros cheios de vômito onde eu sei que vivem os únicos deuses que são reais!
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Boa noite, cavalheiros!
Pela primeira vez, boa noite!
Pela última vez, boa noite!
Eu tenho um nome.
Eu fui registrado com esse nome.
Eu fui batizado com esse nome.
Eu cometi meus crimes com esse nome.
Eu traí a minha pátria com esse nome
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E agora eu perdi meu nome
Ao entrar nesse bar, meu nome se perdeu
Agora eu sou o traidor!
Agora eu sou o inimigo!
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(O burguês senta-se na cadeira. Senta-se ali. Desarmado. Sem defesas. Sem orgulho. E agora, sem um nome. Pronto para morrer. Cospe no chão. Esvazia os bolsos, olha pela porta do Parede de Pedra e tudo o que pode dizer para aquele mundo lá fora é)
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Adeus.
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Então, pequeno burguês, mais um gole / mais um gole a nós: os bastardos! / aqueles vocês esqueceu pelos cantos / aqueles que fazem figuração no teu mundo e que você finge que não / um brinde à nós, que somos famintos / que vivemos sozinhos e sem voz / que vivemos a vida sem os sonhos e sem o pão / e sem as esperanças também / A nós, que somos tua vergonha, a tua desgraça, o teu erro e a tua perdição / a nós, que nunca sentamos em tua mesa / que nunca bebemos do teu vinho e nunca comemos do teu pão / que nunca dormimos em tua cama e nunca fomos teus irmãos / Um último gole, burguês / antes que te levantes / pagues a conta e se esqueça de nós / pra sempre talvez / Mas não esqueça, burguês / que a luta de classes ainda não acabou / e que os império de pedra caem também / eles sempre caem / Ah burguês, e como caem!
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[Mukeka di Rato - Heróis da Nação Falida]

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