"O mundo é nosso!
O nosso mundo!
E toda essa velharia vai morrer."
(Clube da Luta - Chuck Palahniuk)
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(Havia outra mesa no Parede de Pedra, a última mesa de onde o burguês não havia sido escurraçado, onde não havia sido acusado dos pecados que ele sabia ser culpado, dos crimes seculares que ele sabia que tinha seu nome, e que ele sabia que não prescreviam. E essa última mesa também estava ocupada, por um homem de uns 29 anos, cabelos castanhos, bebendo cerveja, a mesma cerveja barata e quente que todos bebiam. E mais uma vez, por uma última vez, ele haveria de tentar sentar-se)
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O que? Você quer sentar nessa mesa?! E beber nesse bar?! Como ousar sequer andar nessas ruas?! Como ousar sair de casa?! Como é que você, pequeno burguês, ousa existir?! Você arranca o pão, o suor e sonho de nações inteiras, durante séculos inteiros, durante capítulos inteiros dos malditos livros de História escritos por vocês, e você agora que simplesmente sentar e beber, como se não houvessem lágrimas, sangue e melancolia com teu cheiro, teu nome e tua culpa?! É, no mínimo, cínico da sua parte, querer sentar nessas cadeiras e beber nesses copos e jurar que nada que digo é real. Desista burguês, pois é tudo real, e nessas cadeiras só sentam aqueles que sabem a nossas sentença: traidor, inimigo, demônio, bastardo...
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Somos os bastardos, os traidores, os esquecidos, os abandonamos, os filhos do meio da História, o esqueleto no armário da civilização ocidental. Nós derrubamos Roma, nós conquistos Constantinopla, nós tomamos a Bastilha, nos derrubamos o czar, nós lutamos contra Franco, contra Hitler, contra Rosa, contra Mussolini, contra Deus! Nós emancipamos as Américas, nós queimamos nas fogueiras da Inquisição, nos fronts das Cruzadas. Fomos nós que criamos o mundo e os destruímos tantas outras vezes. Nós fizemos as histórias dos livros de História que não falam sobre nós, que só falam dos grandes generais que não foram à guerra, dos grandes senadores que não perderam o braço, a perna ou a alma lutando por uma pátria ou por um deus que sequer sabiam os nossos nomes.
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E de tanto ocultarem esses nomes, eles acabaram por se perder. Somos um povo sem nome, somos os bastardos, os traidores da nação, os conspiradores que haverão de retomar o mundo que é nosso, aqui de dentro deste pequenino bar, deste pequenino mundo, deste mundo úmido que agora é o nosso novo mundo, o mundo das conspirações, burguês!
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(Bate na mesa repetidas vezes com o dedo indicador)
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É de dentro dessas paredes que conspiramos contra os homens, seus governos, seus mundos, seus deuses! Pois todos eles haverão de morrer, um por um, pois nenhum de nós haverá de dar pão ao povo, haveremos de dar-lhe mais que o pão, as migalhas que caem de deus banquetes, haveremos de dar muito mais, daremos a verdade! E, com a verdade, que o povo diga o que realmente quer: pão ou sangue, as migalhas ou o mundo! Pois ninguém contenta-se mais com o peixe, nós queremos é o oceano inteiro. E de dentro dessas paredes, de dentro desses corações, desses míseros e maltrapilhos corações e dessas úmidas e condenadas paredes haveremos de quebrar as janelas, tomar as ruas, lançar os molotovs, incendiar os céus. Imagine, burguês: "Demônios bastardos tomam os reinos dos céus e destronam Deus. Instaura-se a anarquia!", imagine os povos, sem mais algemas, sem mais grilhões, sem mais fome...
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Dançando.
Apenas, dançando.
Nada mais.
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Dançando sobre os escombros de um mundo, que é o teu mundo burguês, mas nunca foi o nosso mundo, que foi o mundo de poucos, mas nunca foi o mundo do mundo. Dançando sobre as cinzas do teu deus, que foi o deus de poucos, mas nunca foi o nosso deus, pois aqui embaixo, pequeno burguês, você aprende à viver em solidão, a solidão eterna que é a sina dos homens que vivem pela verdade, a verdade que é aquilo que haverá de derrubar teus Estado e teus irmãos e haverá de nos tornar os nossos próprios senhores, nossos próprios messias.
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Pois agora, como disse o poeta, "come ananás / mastiga perdiz / teu dia está prestes, burguês." e a bebida barata que bebemos hoje, amanhã haverá de ser o teu sangue, e o pão velho que comemos, amanhã haverão de ser as tuas vísceras, e nossos casacos serão da tua pele, e nossos castelos dos teus ossos, mas o nossos mundo, esse não haverá de ter nada teu.
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Então, pequeno burguês, mais um gole / mais um gole a nós: os bastardos! / aqueles vocês esqueceu pelos cantos / aqueles que fazem figuração no teu mundo e que você finge que não / um brinde à nós, que somos famintos / que vivemos sozinhos e sem voz / que vivemos a vida sem os sonhos e sem o pão / e sem as esperanças também / A nós, que somos tua vergonha, a tua desgraça, o teu erro e a tua perdição / a nós, que nunca sentamos em tua mesa / que nunca bebemos do teu vinho e nunca comemos do teu pão / que nunca dormimos em tua cama e nunca fomos teus irmãos / Um último gole, burguês / antes que te levantes / pagues a conta e se esqueça de nós / pra sempre talvez / Mas não esqueça, burguês / que a luta de classes ainda não acabou / e que os império de pedra caem também / eles sempre caem / Ah burguês, e como caem!
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[Descedents - I'm the One]
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