"As pessoas vão à igreja pelos
mesmos motivos que vão à taverna:
para estupefazerem-se, para esquecerem-se
de sua miséria, para imaginarem-se,
de algum modo, livres e felizes"
(Mikhail Bakunin)
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O que?! Você quer sentar aqui? Nessa mesa? Comigo? Claro que pode, amigo! Nessa mesa, todos serão bem-vindos... Mas antes, esvazie os bolsos, burguês! Abandone sobre essa mesa todos os valores que existem dentro do seus bolsos, e principalmente, abandone o seu Deus, porque o seu Deus já o fez. Teu Deus te abandonou antes mesmo de você nascer, o seu Deus o abandonou antes mesmo dele mesmo existir, porque o teu Deus, pequeno burguês, nunca existiu. E se existiu, pode ter certeza, a sua existência nunca chegou à essas ruas, a esses bares e muito menos à essas mesas, a essas mesas que são meus únicos deuses, que nunca me abandonaram e nunca falharam comigo, que nunca me deixaram sozinho pra morrer, que sempre me deram com quem chorar, com quem sorrir e a quem amar.
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Então burguês, já esvaziou os bolsos e já deixou teu Jeová para além daquela porta? O que? Tem medo que ele se molhe na chuva, é? (gargalhada) Guarde a sua misericórdia para quem a merece, pois têm medo de abandonar teu deus para pegar um mísero resfriado, saiba que todos nessas mesas foram abandonados para morrer em tempestades bem piores, todos aqui foram abandonados pra morrer afogados no meo do oceano, gritando pra ninguém escutar, e acredite, pode até soas um tanto quanto poético, de fato, porém com todo o sal daqueles mares, com todo o sal de todas as lágrimas que fizeram todos os desesperados, que agora estão sentandos nessas mesas, não é nem um pouco doce morrer no mar.
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Então burguês, já esvaziou os bolsos e já deixou teu Jeová para além daquela porta? O que? Tem medo que ele se molhe na chuva, é? (gargalhada) Guarde a sua misericórdia para quem a merece, pois têm medo de abandonar teu deus para pegar um mísero resfriado, saiba que todos nessas mesas foram abandonados para morrer em tempestades bem piores, todos aqui foram abandonados pra morrer afogados no meo do oceano, gritando pra ninguém escutar, e acredite, pode até soas um tanto quanto poético, de fato, porém com todo o sal daqueles mares, com todo o sal de todas as lágrimas que fizeram todos os desesperados, que agora estão sentandos nessas mesas, não é nem um pouco doce morrer no mar.
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(Faz uma pausa, bebe um gole de sua cerveja quente de dois reais a garrafa de 600ml e observar aqueles que bebem da mesma cerveja)
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Ah burguês, olhe para esses rostos, veja que belos rostos! O que?! Não acha? (exalta a voz e altera as feições, demonstrando raiva) Claro que não acha! Você é apenas um burgueisinho filho-da-puta que só vê beleza em peitos grandes e olhos claros, seu merda! Você vê apenas um monte de bêbados? (continua a falação em tom apaixonado) Pois eu vejo os mais belos homens e mulheres que jamais existiram. De fato, não esperava que achasse, você ainda é capaz de enxergar apenas Pedros e Carolinas, apenas pessoas simples que, pra você, não tem rostos e nem histórias, mas eu enxergo Baudelaires, Bakunins, Durrutis... onde você vêem estudantes beberrões, eu vejo aqueles que irão atear fogo nos próprios corações e usá-los como bombas incendiárias, eu vejo aqueles que vão sacudir as pilastras do céu e tomar de volta tudo o que é do homem, eu vejo aqueles que haverão de te decaptar, burguês, isso se não os tornarem velhos demais para isso, isso se esses, que são os mais belos corações não ousarem pedir perdão pelo pecado mais belo de todos, que é o pecado de estar errado, pois se eles são bêbados, vocês são insuportáveis, se eles se vestem mal, vocês se fantasiam do que não são, se eles não trabalham, vocês não vivem, se eles não são ninguém, vocês burgueses nem sequer existem.
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(Se levanta com o copo entre os dedos e grita)
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Um brinde, caros bêbados, ao pecado, ao errado, a beleza profana que existe entre essas paredes! Um brinde aos bêbados, pois já disse o poeta que, eu tenho certeza, vive entre essas paredes como um imortal: "É preciso estar sempre embriagado / Para não sentirem o fardo incrível do tempo / que verga e inclina para a terra / é preciso que se embriaguem sem descanso / Com quê? Com vinho, poesia, ou virtude, a escolher / Mas embriaguem-se".
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E um brinde à este homem (aponta para o burguês) que veio até nós para tentar nos salvar, mas que haverá de sair daqui sem ter para onde voltar, pois o seu mundo será destruído essa noite e seu paraíso haverá de cuspir nele, assim como cuspiu em nós. Pois talvez quem precise ser salvo seja ele, e não nós. Cavalheiros, aos deuses mortos que caminham nas ruas além desse bar, que vivem suas sobrevidas roubando a vida de discípulos em templos, pois esses discípulos, meus queridos e belos cavalheiros, estão mais bêbados do que qualquer um de nós.
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(Entorna todo o copo de cerveja e o esmaga na mesa de metal com as mãos, o que acaba por corta-lhe a palma, e ergue a mão ensangüentada e grita)
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UM BRINDE!
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(Senta-se novamente e começa à limpar a mão com guardanapos, enquanto pede outro copo ao garço)
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O que houve?! O que?! Não vai dizer que tem medo de sangue?! (sorri de forma incrédula) Vocês da direita cristã são uma raça, no mínimo, contraditória, vocês mataram nas Cruzadas, mataram nas Inquisições, mataram nas Grandes Navegações, mataram nas Grandes Guerras, mataram na Noite de São Bartolomeu, e agora você, pequeno burguês, me diz que tem medo de sangue? Nossa! Por essa eu realmente esperava.
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(Com a mão não-cortada puxa do bolso um maço amassado de cigarros e um isqueiro amarelo e com a mão cortada que agora contava com um curativo toscamente forjado com guardanapos de papel coloca o cigarro na boca e o acende, e em seguida oferece um ao burguês)
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Deixa-me adivinhar, você não fuma! Nada contra! Sério! Nesse bar há grandes e maravilhosos homens abstênios! Mas porque você não fuma? De todos os vícios de um homem cristão, considere este o mais inofensivo, vocês têm o vício de começar guerras, de queimar homens bons, de condenar os dissidentes ao eterno esquecimento, então puxe um cigarro, acredite. o seu suicídio é um favor à esse mundo. E me faça um grande favor, leve os teus contigo: leve o medo da morte, leve a culpa, leve a solidão, leve tudo que é de teu deus contigo. Leve tudo que seja puro, tudo que seja limpo, pois os ratos dessas vielas acabarão por devorá-los, e se não os devorar, eu mesmo faço, arranco o coração e jogo aos cães, bebo o sangue do teu Cristo que é vinho também. Mandem-os de volta ao paraíso: os puros, os corretos e o deu bom coração, e que nunca cheguem próximo do Parede de Pedra, porque eu posso até estar errado, burguês... seu Deus pode ser real, bom, e puro, mas de nós ele se esqueceu, e se ele nos negou amor durante toda uma existência, agora só tenho para ele balas, espadas, canhões e desprezo... e desprezo é algo que se têm aos montes por aqui, porque o Parede de Pedra é a miniatura do mundo, e se aqui a comida é ruim e a cerveja é quente, saiba que entre o céu dos burgueses e o Nifhelm do povo, nada presta, nem a comida, nem a cerveja, nem os homens e nem nada. Por favor, os leve contigo, e nunca mais volte aqui, homem cristão, homem burguês, pois teu coração é muito pequeno para compreender os verdadeiros deuses, deuses que tem nomes, tem carne e pricipalmente, corações. Pois nós somos os únicos deuses, os homens, e ninguém aqui quer a tua adoração, apenas companhia para mais um gole. Então vá embora, burguês... que nesse bar não entram homens, apenas deuses.
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Então, pequeno burguês, mais um gole / mais um gole a nós: os bastardos! / aqueles vocês esqueceu pelos cantos / aqueles que fazem figuração no teu mundo e que você finge que não / um brinde à nós, que somos famintos / que vivemos sozinhos e sem voz / que vivemos a vida sem os sonhos e sem o pão / e sem as esperanças também / A nós, que somos tua vergonha, a tua desgraça, o teu erro e a tua perdição / a nós, que nunca sentamos em tua mesa / que nunca bebemos do teu vinho e nunca comemos do teu pão / que nunca dormimos em tua cama e nunca fomos teus irmãos / Um último gole, burguês / antes que te levantes / pagues a conta e se esqueça de nós / pra sempre talvez / Mas não esqueça, burguês / que a luta de classes ainda não acabou / e que os império de pedra caem também / eles sempre caem / Ah burguês, e como caem!
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Então, pequeno burguês, mais um gole / mais um gole a nós: os bastardos! / aqueles vocês esqueceu pelos cantos / aqueles que fazem figuração no teu mundo e que você finge que não / um brinde à nós, que somos famintos / que vivemos sozinhos e sem voz / que vivemos a vida sem os sonhos e sem o pão / e sem as esperanças também / A nós, que somos tua vergonha, a tua desgraça, o teu erro e a tua perdição / a nós, que nunca sentamos em tua mesa / que nunca bebemos do teu vinho e nunca comemos do teu pão / que nunca dormimos em tua cama e nunca fomos teus irmãos / Um último gole, burguês / antes que te levantes / pagues a conta e se esqueça de nós / pra sempre talvez / Mas não esqueça, burguês / que a luta de classes ainda não acabou / e que os império de pedra caem também / eles sempre caem / Ah burguês, e como caem!
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