sexta-feira, 14 de março de 2008

Uma Noite de Coveiro

[Ilustração por Stephan Doitschinoff]

A noite fazia-se tão escura e gelada que era difícil acreditar que o sol voltaria a nascer um dia. As gotas caiam pesadas e frias como os próprios corações e a única luz que era emanada daquele céu de trevas eram os relâmpagos que chicoteavam a terra como se tentassem mostrar a ira de Deus.
Talvez fosse Deus
Mas não era, e ele sabia

Trajava um jeans colado e sujo de terra, uma camiseta branca estilo machão, que revelavam os braços franzinos. No peito, pequenas manchas de barro tentavam, inultilmente, desviar a atenção daquele vermelho viscoso e morto que manchava-lhe o dorso.

Aquele sangue não era seu, era dele! Do inimigo! Daquele que proclamava-se invencível, mas nada podia frente a um coração sem medo

Nas mãos trazia uma pá com a qual lançava terra dentro da cova previamente cavada. Cada grão daquela terra lançava sobre o corpo a sentença final: a do esquecimento. Mas haviam aqueles que não seguiam essas instruções e nunca se esqueciam. Haviam os vermes... Os vermes jamais esqueceriam. Os vermes... Os filhos preferidos da Morte, que nunca deixava faltar-lhes o alimento e o abrigo, nem que para isso tivesse que arrancar o alimento e o abrigo de outra família.
No final, a Morte antes de desgraça, era mãe...

Na cova: O Inimigo...
Na alma: O Assassino...
Na pá: O Final!

O céu continuava à afogar a terra com suas lágrimas sem sal. Talvez tentando dizer que Deus estava triste...

Mas não era Deus, ele sabia que não!

Dentro da cova podia-se observar os poucos trechos que ainda não haviam sido devorados pela areia: os olhos do inimigo ainda transmitiam o horror e a decepção em saber que "poder tudo" era o mesmo que nada contra o coração que não lhe dava tais poderes.
A chuva começava à diminuir, como se desistisse de esperniar para tentar trazê-lo de volta. O olhos do assassino ergueram-se e observaram em volta... Quanto?! Quantos haviam aquele maldito matado?! Quantas Joanas D'arc? Quantos Nicolais Copérnico e tantos outros sem nome e sem rosto, que por dizerem não ao inimigo tornaram-se sem alma? Mas isso acabou, e os olhos daquele assassino que antes traziam culpa, agora enchiam-se de orgulho "O inimigo está morto! Minhas mãos estão sujas de seu sangue e meu olhos maravilhados com as rachaduras de seu reino... não há mais o que temer!"
A última porção de areia foi posta, a chuva terminará, evidenciando que o cú começava à entender. O assassino arremesou a pá para o lado e pucou uma lápide previamente preparada e pensada durante anos! Encaixou-a no topo da cova, pensou em flores, mas aquele porco não as merecia! Ao invés disso deu uma cusparada sobre o túmulo e observou o céu: atrás das poucas nuvens que ainda alimentavam mágoas cintilava o azul mais vivo, realçado pelo mais belo sol que gritava "Enfim, fim!" Então ele partiu para espalhar a boa nova.

Se você caminhasse até a lápido poderia ler "Aqui já Deus: pai do medo, filho da solidão!"


[Iron Maiden : Prowler]

0 comentários: